A cura é um processo doloroso
Hoje resolvi somente desabafar, falar um pouco desse processo de cura. Tem dias que a alma grita e não temos com quem conversar. Por mais que eu tenha amigas, rede de apoio, não me sinto confortável de ficar alugando elas todo o tempo com o mesmo assunto. E hoje é um desses dias! Não sei o que vai sair, se vou conseguir manter um texto coeso, mas vou falar o que está doendo aqui dentro.
Faz 7 meses que sai de casa, que voltei a morar nos meus pais. Desde então estou dormindo na sala deles, em um colchão no chão junto com meu filho mais novo, o José.
Tem dias que estou bem, me sinto confiante e animada. Mas tem dias que eu desabo, fico sem vontade de fazer nada, entro em crise. Só que, mesmo sem ter vontade de nada, eu preciso levantar e seguir. Ninguém nem desconfia que estou passando por uma crise no momento. Estou sempre aparentando estar bem, mesmo quando por dentro de mim só tem dor, ruÃnas, medos e dúvidas.
A minha vida mudou do dia pra noite. Eu era casada, morava com o marido e os filhos em uma casa. Tinha minha rotina, minhas coisas, meu ambiente. Então, em um belo dia, após mais uma das intermináveis e massacrantes discussões, precisei sair de casa as pressas levando somente algumas mudas de roupa e o meu filho caçula. João, o filho mais velho, optou por morar com o pai para protegê-lo, por medo de que ele se suicidasse, já que essa era uma ameaça constante em nossas vidas.
Conviver com uma pessoa abusiva e tóxica é muito ruim! Passei quase 18 anos da minha vida sendo ameaçada, controlada, manipulada, silenciada... as ameaças eram veladas, o controle vinha por meio de "proteção", a manipulação vinha através de muita distorção de tudo o que eu falava. Eu fui me silenciando, pisando cada vez mais em ovos, comecei a esconder coisas simples dele por medo das explosões que ele tinha por nada. Eu fui muito xingada, humilhada, menosprezada. Ouvi coisas que deixam as mulheres para quem eu conto de boca aberta e indignadas por eu nunca ter retribuido da mesma forma. Pelo contrário, eu abaixava a cabeça, media as palavras por medo dele se ofender e explodir, depois ainda ficava ali do lado dele tentando acalmá-lo e dizendo que ele era sim uma pessoa boa, que ele tinha um bom coração, era só as condições que a gente vivia que o fazia agir daquela maneira tão imbecil e babaca.
Tem dias que eu to bem, mas tem dias, como nesses últimos, que eu não estou legal. As lembranças voltam forte na cabeça, começo a me sentir insegura, com medo, fico em dúvida se fiz a coisa certa, se não foi exagero meu terminar tudo... me pergunto como será o meu futuro, me culpo por ter "destruÃdo" a famÃlia dos meus filhos. E aà eu me lembro tudo o que ele fez, de como eu adoeci, das muitas vezes que eu orava chorando e implorando pra Deus me levar porque eu simplesmente não estava mais aguentando tanta loucura, tantas brigas, tantas acusações, tanta perseguição dentro da minha própria casa, tantas humilhações e xingamentos. Eu achava que eu não conseguiria sair daquilo, que estava condenada a viver aquele inferno para sempre.
Mas eu sai, eu consegui sair. Não foi fácil, ainda não está sendo fácil. Minha vida tá uma bagunça, eu não sei direito nem mais quem eu sou, o que eu quero da vida... a única certeza que tenho é a de que eu não quero nunca mais voltar pra aquele lugar horroroso do qual eu sai. Eu fui liberta, Deus me libertou daquele cativeiro de opressão, depressão, humilhação e eu não posso voltar. Só preciso ter forças para conseguir me manter firme e não reincidir no erro. Não que eu pense em voltar com ele, pelo contrário, mas a culpa de ver meus filhos com a famÃlia destruÃda as vezes me pega, eu não queria que fosse assim, de jeito nenhum. Tanto que aguentei quase 18 anos pra manter os filhos perto do pai e para eles terem uma famÃlia "tradicional". Não queria que eles fossem filhos de pais separados, mas infelizmente aconteceu. E eu peço desculpas a eles por isso, me dói quando penso nessa situação, mas se eu não tivesse tomado essa atitude de sair fora, hoje eles poderiam ser órfãos de mãe.
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