Quem eu era antes dele?

Nesse processo de cura, estou focando em lembrar quem eu fui um dia para encontrar quem eu sou hoje. Quem é a Karina após tudo o que aconteceu?

Por isso, resolvi falar um pouco sobre mim, sobre a minha vida antes de me relacionar com ele. Quando a gente passa tantos anos em um relacionamento abusivo, acaba se descaracterizando. Dia após dia, vai deixando de ser quem realmente é para se tornar quem o abusador quer que sejamos, só para evitar brigas e conflitos.

E assim foi comigo ao longo de quase 18 anos, entre namoro e casamento. O pior de tudo é que você nunca é boa o suficiente para ele. Você pode se transformar em qualquer coisa — até numa planta — e, mesmo assim, ainda receberá críticas e acusações infundadas.

Tentando lembrar quem era a Karina antes do relacionamento, fui em busca de fotos antigas. Mas acabei mexendo em feridas ainda não cicatrizadas, porque me deparei com imagens do começo do namoro, quando eu ainda estava na fase da “lua de mel”. Ali eu ainda era eu, ainda acreditava ter encontrado um príncipe encantado.

Constatar pelas fotos a diferença entre o início e apenas um ano depois mexeu muito comigo. Doeu. Me vi uma pessoa com o olhar triste, já perdendo a pouca vaidade que tinha, sem autoestima e extremamente insegura.

E como poderia ser diferente? Eu havia passado de ter ao meu lado alguém que me fazia versos e poemas, que dizia que seria meu companheiro para a vida inteira, que ajudaria a realizar meus sonhos e me trataria como a princesa que eu era e merecia… para conviver com um homem que me ameaçava com traições, que de fato me traiu com a ex enquanto já estávamos em um namoro sério, que me acusava de flertar com outros homens sem que isso nunca tivesse acontecido.

Ele implicava até quando eu queria sair para jantar com meus próprios pais, alegando que só poderia sair se fosse acompanhado dele sendo que ele mesmo ia escondido a rodeios com colegas de trabalho ou passeava de moto com os amigos. Chegou a dizer que eu nem fazia o tipo dele, que não gostava de mulheres loiras de olhos claros, mas estava comigo apenas porque eu era quieta e não oferecia risco de traição.

Foi nele que confiei, para quem me entreguei e perdi a virgindade. E, poucas semanas depois, já me fazia duvidar de mim mesma, insinuando que eu talvez nem fosse virgem de verdade. Me comparava à ex, dizendo que eu era fria, uma “geladeira”, ruim de cama, enquanto ela era quente e sabia dar prazer a um homem.

Com tudo isso (e muito mais) fui me tornando insegura, ciumenta, possessiva, triste. Perdi a pouca vaidade que tinha, me apaguei, me anulei. Passei a tentar ser alguém que não traria problemas ou desconfianças, acreditando que assim evitaria brigas e conseguiria manter a tão sonhada paz, vivendo o famoso “felizes para sempre”.

É… mexer nessas fotos me trouxe muitas dores e lembranças ruins. Ainda não consegui trazer totalmente à superfície quem eu era antes dele. Mas sei de uma coisa: ela está aqui, viva dentro de mim.

E eu tenho esperança. Esperança de reencontrá-la em breve, para que juntas possamos construir a Karina que está nascendo agora: mais forte, mais inteira e mais livre depois de todo esse processo.

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